"Eternamente marcado"
- É uma bela visão, não acha? - Minos indaga com ironia, num tom baixo, enquanto contempla a paisagem.
O espectro volta ao sofá em que estava sentado há pouco e se serve de mais vinho, bebericando em seguida. Ele fita atentamente o cavaleiro, deleitando-se com cada gesto, expressão e olhar que o rapaz deixava escapar. Minos cruza suas pernas, reclinando-se no encosto do assento e dá um longo suspiro, tentando relaxar seu corpo dolorido. Se Albafica não estivesse diante de seus olhos, ele os fecharia, para tentar acalmar a dor que faz sua cabeça latejar.
Albafica, ainda pasmo, não move um músculo sequer. Fita o horizonte assustado, confuso e incrédulo. Seu olhar é vazio, mas Minos percebera um certo nervosismo, que Albafica lutava para esconder.
Griffon dá um sorriso torto, abrindo um pouco mais sua boca e deixando transparecer deus dentes brancos. Toma mais um gole de vinho, esperando que Albafica se acalme e diga alguma coisa. A situação se torna mais divertida a cada minuto que passa e ele não tem pressa alguma. A reação do santo de Atena era algo impagável e isso lhe proporcionava um prazer inigualável. Ele continua degustando seu vinho, da mesma forma com que saboreava aquele momento.
- Vejo que você não se contentou apenas com minha morte... - Albafica diz num tom baixo, voltando-se para o juiz e fitando-o com um olhar torto e raivoso. Novamente tinha a certeza de que Minos sentia prazer em humilhá-lo.
Minos dá uma risadinha baixa e volta a falar num tom de voz sereno e sarcástico.
- Ah... esse olhar indomável... mesmo estando no inferno, sob minha tutela, você continua com seu orgulho intacto, não é mesmo... Albafica?... Ótimo! Isso tornará as coisas mais interessantes. Seria realmente um tédio se eu conseguisse o que quero em apenas alguns minutos. - os olhos de Minos brilham intensamente. Albafica pode perceber claramente que ele está cheio de planos maléficos para torturá-lo. Minos volta a cruzar as pernas e descansa seu cotovelo sobre o braço da poltrona, apoiando a cabeça na mão.
- Por que tudo isso? Por que tens prazer em ferir meu orgulho e tirar minha paz?! - o rapaz indaga, inconformado e confuso. Sua voz era baixa, calma e suave, não transparecia o ódio e revolta que estava sentindo no momento.
Minos estranha o tom de voz de Albafica. Isso o perturba e o deixa pensativo.
"Esse tom de voz... por que está sendo tão gentil e calmo? Eu estava pronto a escutá-lo me xingar e vê-lo se debater tentando soltar-se dos grilhões..." – pensa, enquanto fita o cavaleiro diretamente nos olhos. - O que está tramando, cavaleiro? – pergunta, desconfiado, estreitando seu olhar com uma expressão séria.
- Eu imaginava todo o tipo de crueldade vindo de uma pessoa como você, mas jamais me passou pela cabeça que chegaria a este ponto. - ainda com o mesmo tom de voz, com movimentos leves e lentos, ajoelha-se e descansa as mãos acorrentadas sobre suas pernas, mantendo a cabeça erguida.
- Não seja ridículo, Albafica! - Minos adorava falar o nome do cavaleiro e, sempre quando dizia, dava ênfase a ele. - O que imagina que acontece aqui? Neste lugar só há espaço para torturas e sofrimento, nada mais e nada menos que isso! Você me acusa de estar lhe fazendo mal... mas que mal eu lhe fiz até agora? Nem sequer o toquei! Tudo que fiz a você foi te tirar daquele maldito inferno congelante e trazer até meus aposentos. Você deveria me agradecer e beijar meus pés por isso, Albafica! - seu tom de voz continua sereno e quando Minos menciona o nome do santo de Atena, o faz num tom debochado, abrindo um sorriso discreto de satisfação.
- Quem está bancando o ridículo aqui não sou eu e sim você... acha que pode trazer um sofrimento maior a uma pessoa do que a própria morte? - Albafica se controla e volta a expressão calma e serena de antes, olhando firmemente para o juiz.
- Então... se achas que a morte é o maior sofrimento que existe... você realmente deve beijar meus pés por pedir a Hades-sama que lhe devolvesse a vida! – conclui, desdenhando num tom calmo, enquanto seu olhar, agora sereno, fita o cavaleiro nos olhos. - Pois isso significa que, não importa o que eu faça com você, nada será pior do que o cocytos de onde o tirei.
- Algo me intriga muito... você já fez isso com algum outro cavaleiro? Ou só eu tive essa "honra"? - o cavaleiro enfatiza a palavra "honra" com certo sarcasmo, ainda fitando o juiz firmemente, tentando sentir suas verdadeiras intenções.
- Hum... "honra"?! Que bom que pense assim. - Minos dá um sorriso maléfico, devolvendo o sarcasmo do cavaleiro. - Realmente... és o primeiro e talvez, o último. – responde, sem preocupação alguma.
Minos sabe exatamente onde Albafica quer chegar, mas logicamente, revelar suas verdadeiras intenções está fora de cogitação.
Albafica dá um suspiro. - Não sei onde quer chegar... mas sei de uma coisa: eu não tenho mais nada que você possa tirar, nem tens como me causar mais dor. Afinal, já estou no inferno. - o rapaz permanece na mesma posição e, enquanto fala, sua voz ganha mais vida e força.
- Co-como?! - Minos questiona, balbuciando, sem acreditar nas palavras que ouvira. Chega até mesmo a gaguejar.
O juiz o fita, boquiaberto, por alguns segundos. Estava atônito por ouvir tamanha bobagem. Logo, o espectro não se aguenta e começa a rir baixinho. Sua risada ganha força, até se tornar uma incontrolável gargalhada. Mas não demora muito para que todo o seu corpo se contraia, causando-lhe uma dor insuportável, o que faz com que ele se cale do nada e trinque os dentes, sem conseguir se controlar. Um silencio gritante toma conta do ambiente.
Albafica observa-o atento, se perguntando o que está acontecendo com ele e quais são seus reais objetivos. Muitas dúvidas tomam conta da mente do rapaz.
Após um bom tempo no silêncio, Minos finalmente controla sua dor e volta à sua expressão serena, dando um leve sorriso torto após suspirar profundamente.
- Você me diverte, alva rosa... vejo que meus dias de tédio realmente se acabaram! - desta vez usa um tom gentil, retribuindo a boa educação do cavaleiro.
Albafica ainda se mantém imóvel, apenas fitando o juiz com seu olhar sereno de sempre, tentando encontrar respostas para suas dúvidas.
- Cuidado meu caro... rosas tem espinhos. - usa um tom irônico, enquanto projeta um pequeno sorriso no rosto. - Como um deus como Hades pode ceder a este teu capricho?! - Albafica tenta elevar seu cosmo, pois já está no limite de sua paciência e pretende acabar logo com tudo isso. - Que eu saiba, você falhou em sua missão.
A afirmação de Albafica cutuca a ferida de Minos, o que o deixa bem irritado. Mas o juiz não perde sua pose, afinal, ele não se deixaria humilhar por seu escravo.
- Ora, meu caro, eu o matei e o trouxe pro inferno junto comigo. Portanto, você me pertence. - sorri ainda mais ao ver que Albafica está finalmente reagindo. Minos sabia que aquelas algemas postas em Albafica selam o cosmo e, por mais que o cavaleiro tentasse, não poderia fazer absolutamente nada. Seu olhar pretensioso o fita, esperando a próxima reação do santo de Atena. Minos está se divertindo como nunca
- Ao contrário de você, Minos, eu morri cumprindo meu dever e meus objetivos. - mantém seu tom de voz firme, mas sente que há algo errado consigo. - "Mas... o que está acontecendo?! Meu cosmo! Por que não consigo encontrá-lo dentro de minha alma?!" - Albafica pensa, com certo desespero, quando percebe que, por mais que se concentre, não consegue produzir uma centelha de cosmo sequer. Não demora muito, um estalo vem em sua mente. Então, ele olha para as algemas com certa raiva, mas logo volta a fitar o espectro com seu olhar calmo e sereno.
- Vejo que és bem prevenido, Minos. - uma gota de suor escorre pelo rosto de Albafica, que se desespera com a situação, mas esconde ao máximo seu nervosismo.
- Hum... - Minos dá um sorriso diabólico ao ver que, finalmente, Albafica descobriu o segredo das algemas. - Eu acho que você ainda não entendeu a gravidade da sua situação, Albafica. Muito menos sua atual posição. Deixe-me explicar melhor...
Enquanto fala, num tom baixo e sutil, se levanta, indo em direção ao cavaleiro e agachando-se à sua frente, repousando um dos joelhos no chão, enquanto com uma das mãos segura levemente o queixo de Albafica, fazendo-o olhar dentro de seus olhos, que estão muito próximos.
- Eu o matei, como matei vários dos seus amiguinhos de prata e bronze. Morrendo ou não, eu o trouxe comigo. Hades-sama achou justo que você me pertença e, a partir de hoje... você é meu escravo e satisfará todos os meus caprichos! - fala baixinho, num tom maquiavélico, depois se aproxima do seu ouvido e continua. - Portanto... É bom que valha a pena, meu caro, pois ficará comigo até que me satisfaça! - ri baixinho, ao pé do ouvido do rapaz.
- Você não sabe o quanto te odeio! Nem sei se é possível medir em palavras! - Albafica trinca os dentes de ódio, enquanto vomita as palavras, completamente revoltado.
Minos ainda segurava o queixo de Albafica e mantinha a boca perto de seu ouvido, escutando calmamente as palavras do cavaleiro e fechando os olhos levemente. As palavras do santo de Atena são como música para seus ouvidos. Ele realmente estava apreciando aquele momento. Mesmo as palavras ríspidas de Albafica não o afetam, pois o juiz estava em êxtase por se aproximar tanto assim daquela rosa venenosa.
- Continue Albafica, diga-me tudo que tens a dizer. - sussurra ao seu ouvido.
- De todos os guerreiros que você matou nessas guerras santas, por que faz isso a mim?! Por que fui o escolhido para tal tortura? Por que me odeia tanto assim?! - sem perceber, Albafica deixa sua raiva explodir.
Minos fica maravilhado com a explosão de Albafica, pois aquilo mostrava o quanto conseguiu atingí-lo.
- Eu não te odeio Albafica... - ele faz os lábios chegarem ainda mais perto de sua orelha e sussurra ainda mais baixo. Chega a ser algo sensual, mas não intencional. - Ao contrário, você me diverte... e foi por isso que o escolhi!
O juiz se afasta um pouco, para olhar diretamente naqueles lindos e indomáveis olhos azuis, analisando cada reação de suas pupilas. Ainda está segurando o queixo de Albafica, mas agora, seu toque se torna gentil e delicado. Os estreitos olhos arroxeados fitam o cavaleiro, como se pudessem despir sua alma e ler seu coração. É algo hipnótico.
- É preferível a morte a ser teu escravo! - se acalma um pouco, sacudindo a cabeça, fazendo com que Minos o solte e tirando alguns fios de cabelo que voaram em seu rosto.
- Isso é bom... - Minos responde com um sorriso torto, sem mostrar os dentes, mantendo sua voz baixa e sádica e leva sua mão até o rosto de Albafica, acariciando-o levemente. - Isso significa que me divertirei bastante com você. Como eu disse: se eu conseguir o que quero apenas em alguns minutos... não terá graça alguma.
- O que você quer, afinal?! Meu sofrimento? Minha humilhação? Minha dor? - Albafica grita, mostrando todo o ódio que antes tentava conter.
A reação do cavaleiro faz com que Minos mergulhe ainda mais em sua admiração.
- Que tal... um pouco de cada? - irônico.
O juiz continua acariciando o rosto do rapaz. A cada palavra de Albafica, Minos se mostra mais motivado, pois percebe que terá diversão por um longo tempo.
O santo de Atena abaixa um pouco seus olhos ao ouvir isso. Sua expressão muda para um certo vazio e seu olhar perde todo o brilho e vida.
- Ah não! Não assim, tão rápido! - exclama Minos, fingindo-se decepcionado. - Minha flor do campo... não me traga frustração! - seu tom de voz é debochado e baixinho. O juiz continua fitando-o, invadindo sua alma através de seus olhos.
- Não me chame assim! - Albafica diz, num tom ofendido. - Eu tenho algo a te dizer. - firma sua, voz tentando se impor.
- Hum... e por que não chamá-lo assim? - Minos sorri, fazendo troça do cavaleiro. - Então, como devo lhe chamar? Hum... vamos ver... - leva a mão ao próprio queixo, pensativo. - Bom... não reclamou quando lhe chamei de alva rosa... é isto que seu nome significa, não é mesmo? Flor branca. Está decidido, é assim que o chamarei! Alva rosa! - durante esse momento, Minos havia perdido todo o seu ar debochado e cruel, dando espaço a uma feição gentil e um sorriso brincalhão. Mas logo volta a assumir a mesma postura de antes, lançando-lhe um olhar frio e impiedoso. - Diga-me tudo que tens a falar para mim, minha alva rosa... - usa um tom de escárnio, como se falasse com uma criança.
- Minos... - o cavaleiro respira fundo. - Não importa o que diga, não importa o que faça, jamais me humilharei diante de você. É um juramento! - fala determinado. Seu olhar ganha vida, sua voz transmitia determinação, deixando para trás sua dor e raiva.
- Excelente! - o espectro abre um largo e cruel sorriso de satisfação. - Não esperava menos de você, Albafica, um dos mais orgulhosos santos de Atena. Minos estava animado, pode-se notar até certa felicidade em seu ser. Seu olhar brilhava, como o de uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo.
- Então eu acho melhor você me mandar de volta, pois não conseguirá o que quer de mim. - Albafica se mantém firme, abrindo um pequeno sorriso, enquanto o fita com uma expressão serena, mesmo não entendendo a reação do espectro.
- Não meu caro, eu já consegui! Não sabes o quanto me deixou contente. - o olhar pretensioso do espectro brilha intensamente, em êxtase.
- O que?! - seu sorriso se desfaz, dando lugar a uma expressão confusa e séria. Albafica não entende o que Minos quer dizer.
Minos está agachado a sua frente e o fita com um brilho enigmático no olhar.
- É o que eu disse, já consegui o que quero... e enquanto eu o tiver... ficará aqui comigo. - solta um risinho baixo e diabólico. Mas o riso logo se desfaz, dando lugar a um gemido estrangulado. Mais uma vez, Minos havia relaxado e esquecido do estado atual de seu corpo. Quando a dor apertou novamente, não conseguiu se conter, trincando os dentes e se desequilibrando um pouco, tentando se apoiar com uma das mãos no chão.
"O que esse homem quer, afinal?!" - o cavaleiro pensa, tentando encontrar a resposta no jeito e nos olhos de Minos.
O juiz permanecia imóvel e calado, tentando segurar o reflexo da dor que lhe afligia, rasgando-o por dentro. Abaixa sua cabeça, fechando os olhos. Aquela posição não lhe era favorável para suportar a dor, que fazia com que ele se encolhesse um pouco.
Albafica percebe que há algo ruim acontecendo ao espectro e dá um sorriso de satisfação.
Após alguns minutos, Minos se acalma, levantando-se lentamente. O fita de cima, com um olhar de superioridade, enquanto torce os lábios. Então, suspira fundo e volta ao seu tom sereno e autoritário.
- Levante-se!
- Eu já lhe disse que não terá o que quer... não vou fazer o que manda! - o cavaleiro abaixa um pouco a cabeça, fitando o chão.
- Albafica... ou se levanta por vontade própria, ou eu o farei levantar! Escolha! - Minos usa de um tom firme e severo, enquanto o fita com ar de superioridade.
Albafica responde num tom irritadiço e abusado:
- Então faça! Pois eu não o farei!
- Ótimo! O juiz sorri maliciosamente e pega Albafica pelos dois braços, fazendo-o levantar a força. Minos poderia muito bem usar sua manipulação cósmica para isso, mas o contato direto com o cavaleiro o fazia sentir-se bem e ele não perderia esta oportunidade.
- Sinto nojo quando me tocas! - diz o cavaleiro, fitando Minos de forma inexpressiva.
As palavras de Albafica o incomodam, mas Minos não deixa transparecer, fingindo não dar importância alguma. Ele o observa de cima a baixo, analisando o estado do santo de Atena, com a mão no próprio queixo, pensativo.
- Não me importa o que sente, Albafica. Isso realmente não me preocupa. - comenta num tom sério, ainda analisando o cavaleiro. Sua vontade era lhe dar uma surra, para que Albafica aprendesse a respeitá-lo. Mas, inexplicavelmente, não o faz. - "Eu devia torturá-lo até que me pedisse perdão... mas estou certo de que esse maldito não o faria, mesmo se eu o matasse novamente!" - pensa, irritado, mas toma cuidado para não demonstrar sua irritação. - Nojo... Albafica, tenho eu, ao vê-lo com estas vestes mortuárias! - dessa vez, Minos nem se preocupa em dar a ordem. Simplesmente leva as duas mãos até a gola da vestimenta, rasgando-a de cima a baixo e jogando-a longe. Com isso, Minos o deixa completamente nu em sua frente e volta a analisar seu corpo.
Albafica arregala os olhos e sente um frio na espinha ao ver Minos rasgar sua roupa. Fica completamente constrangido e rubro. O espectro percebe seu temor, mas finge não ver.
Revoltado, o cavaleiro trinca os dentes ao ver a situação humilhante em que se encontra. Mas tenta esconder seus sentimentos o máximo possível, pois sabe que tudo que o espectro quer é espezinhar em seu orgulho.
- Hum... não apenas seu rosto, mas todo seu corpo também é belo... – diz, enquanto examina cada parte do corpo de Albafica com um olhar clínico. - O cheiro que vem daquela roupa é repugnante! Avilta teu perfume natural, misturando-se a ele. Você está impregnado com o cheiro de morte que ela exala. - volta a fitar o rosto do seu escravo.
"Nunca alguém ficou tão perto assim de meu corpo dessa maneira em que me encontro!" - Albafica não consegue evitar de pensar sobre isso. - Pensei que já estivesse acostumado... afinal, você vive no inferno. - o santo estava completamente constrangido, mas continuava a manter a imagem de forte, orgulhoso e inabalável.
Minos o fita tranquilamente, demonstrando uma grande paciência.
- Albafica, se quisesse sentir cheiro de morte, não me daria ao trabalho de ir buscá-lo. Muito menos, me preocuparia em pedir ao meu senhor que te ressuscitasse. Além do mais, escravos é o que não me falta aqui. Mas você é o único entre eles que está vivo e há uma razão para isso. Quero sentir teu perfume, o mesmo perfume venenoso que seu sangue exala e que me impregnou, tomando minha vida. Portanto, irás tomar um banho! - Minos explica calmamente ao cavaleiro e adquire um tom conclusivo ao dizer a última frase, enquanto dá seu sorriso debochado.
- Minos, nunca entenderei que tipo de pessoa é você... Mas eu já disse, não serei seu escravo! Prefiro voltar ao Cocytos a servir alguém como você. – fala determinado. Mas é perceptível que algo o incomoda.
- Você não tem escolha. Não o devolverei ao Cocytos, a menos que assim eu deseje. - Minos se abaixa, levando sua mão até o elo que prende a corrente ao chão, enquanto tira uma chave de seu bolso e abre o cadeado, soltando a corrente que apenas prende as mãos de Albafica. - Vamos! - puxa a corrente, dando um tranco, fazendo com que Albafica perca seu equilíbrio e cambaleie um pouco.
- Minos, se quiser prosseguir com isso, me transformarei em um estorvo para você.
- Albafica, estou sendo educado e cortês, mas você me conhece o suficiente para saber a que ponto posso chegar... portanto, se não quiser que eu o agarre e leve até o banheiro à força, venha com suas próprias pernas e pare de reclamar. Minha paciência tem limites e está quase no fim! - Minos havia parado um pouco a frente, se mantendo de costas para o cavaleiro.
Albafica não se sentia nada confortável em ficar nu na frente do juiz. Isso era extremamente constrangedor e humilhante. Fazia com que ele se sentisse completamente indefeso e, na realidade, Minos tinha razão. Não havia nada que ele pudesse fazer.
- Irei, mas não porque está me pedindo, mas sim, por que não me sinto bem com essa sujeira de morte que está em meu corpo. - fala para si mesmo, tentando manter um pouco do seu orgulho.
- Hunf... Orgulhoso, como sempre... - Minos sorri pretensioso.
O quarto de Minos era gigantesco, algo digno de um rei. Lembrava muito os palácios antigos. Albafica pôde ver cada detalhe quando, inexplicavelmente, várias velas se acenderam ao mesmo tempo, iluminando todo o ambiente. O chão era de puro granito escuro e as paredes, de mármore carrara. Existiam vários móveis antigos, de muito bom gosto, feitos de carvalho. Vários objetos adornavam o local: castiçais e candelabros, vasos de porcelana e cristal, vários quadros com paisagens estonteantes. Um dos quadros em especial, o maior, retratava um grande castelo da época antiga, todo adornado com minotauros nos batentes dos telhados. Este ficava acima da cabeceira da grande cama de casal, que também era de carvalho, toda entalhada a mão. Havia também, várias cortinas decorativas na cor vermelho-sangue, com detalhes dourados em suas bordas. Atrás de uma dessas cortinas estava o banheiro, que mais parecia uma casa de banho da antiga Roma.
- Bom gosto... Não é a toa que és a estrela celeste da nobreza. - Albafica diz num tom de deboche, olhando ao redor.
Minos olha de canto para o cavaleiro, um pouco incomodado com o comentário.
- Antes de ser um dos três juízes do inferno, eu vivi na terra, Albafica. Era um rei poderoso e sempre vivi no luxo. Isso aqui, perto do que eu tinha, não é nada.
Quando adentram o banheiro, Albafica pode ver o grande caldarium, parecido com o local onde Saga se banhava, porém muito mais pomposo. Diferente do quarto, aquele local não tinha granito no chão, e sim, um grande jardim, com uma variedade enorme de plantas decorativas. Nas paredes há muitos símbolos desenhados, figuras espetaculares, que pareciam estar vivas e que sairiam dali a qualquer momento. Mas o que, com certeza, chama mais a atenção é o grande Griffon, que toma conta de toda a majestosa parede do outro lado do recinto. Abaixo dele havia uma fonte natural de água fria, uma pequena queda d’água, onde os pés do Griffon repousavam. Havia outros desenhos, que contavam a história da civilização minóica, da ascensão à derrocada do rei de Creta. A água cristalina era quente, fazendo com que uma névoa sutil pairasse sobre o caldarium, uma gigantesca banheira que mais parecia uma grande piscina.
Albafica se mantém parado. Não diz mais uma palavra, apenas observando o local para tentar distrair sua mente. Está muito constrangido e se sente "impuro", não está nada animado com aquela situação. Leva as mãos aos cabelos, alisando-os com certo cuidado.
Minos se vira para Albafica e, fitando-o nos olhos, fala num tom sarcástico e um pouco irritadiço.
- O que está esperando? Quer que eu lhe dê banho também?
- Hunf... - Albafica se encolhe um pouco, escondendo sua genitália com as mãos. Está completamente rubro e não consegue esconder sua vergonha.
Minos solta a corrente no chão e o fita, aguardando por alguns minutos. Mas ao perceber que o jovem não se move, o pega pelo braço e o leva com certa violência até a borda do luxuoso caldarium. Então, o joga na água, sem qualquer cerimônia.
O santo de Atena cai na água, completamente desajeitado, se levantando rapidamente e passando as mãos nos cabelos, jogando-os para trás, enquanto olha revoltado para Minos. Quando o cavaleiro fica em pé, a água fica na altura de seu tórax.
Minos caminha até uma estante e pega algumas coisas, jogando-as em cima de Albafica.
- Pegue! Use isso. - joga sais de banho, esponja e outro pote, com um tipo de shampoo artesanal, algo fino. O juiz cruza os braços, observando impassivo o cavaleiro.
Albafica pega os itens com cuidado e caminha até a borda, colocando-os lá.
- Vai ficar aí me olhando? – pergunta, constrangido.
- Para falar a verdade, não. - Minos responde, num tom seco e desinteressado.
- Melhor... - Albafica suspira aliviado e começa a preparar a esponja para o banho.
Sem qualquer cerimônia, Minos desabotoa a vestimenta, deixando que a mesma escorregue sobre seu corpo e vá ao chão. Fica apenas de calça, que também não demora muito a sair de seu corpo e ser jogada em cima de algum móvel, junto com a cueca.
- O-o que?! - Albafica para o que está fazendo e observa, atônito, Minos se despindo. O corpo do juiz era escultural. Seus músculos atléticos e bem definidos davam um toque elegante ao seu corpo esbelto. O cavaleiro, completamente rubro, desvia o olhar. - Você não pretende...?! – pergunta, constrangido.
O espectro não dá a mínima para a reação de Albafica. Caminha calmamente até as escadas de mármore que levavam ao fundo do caldarium e mergulha, se afastando um pouco por baixo d’água. Ao se levantar, Minos joga seu cabelo para trás. Ele não precisava se esforçar em nada para ser sensual, já o era por si só.
Albafica estava muito envergonhado com aquela situação. Sempre viveu isolado e tomar banho com outra pessoa era algo que nunca passaria por sua cabeça. Tenta não olhar para o juiz, prestando atenção na esponja que estava preparando. Começa a ensaboar delicadamente seu corpo, como se acariciasse uma seda. Vira-se de costas para o espectro, tentando relaxar. Tenta esquecer o que está havendo, esvaziando sua mente.
Minos não estava nem um pouco preocupado com a presença de Albafica. Encarava aquele banho com muita naturalidade, mas ao passar a mão em seu rosto, tirando o excesso de água que escorria de seus cabelos, ficou paralisado, observando minuciosamente cada movimento que o cavaleiro fazia. Na claridade que a água refletia, aumentando ainda mais a iluminação das tochas e candelabros, era possível ver claramente que a pele do espectro estava completamente vermelha, ele estava ardendo em febre.
- Hum... - Minos solta um gemido involuntário, pois seu corpo lhe dizia que a água estava um pouco fria, quando na realidade, ela estava bem quente.
Albafica larga a esponja sobre a borda e, num lento e calmo mergulho, se enxágua, pegando o "shampoo" e aplicando em seu cabelo. Com movimentos leves, cuidadosos e calmos, alisava suas longas madeixas azuis. Apesar de tentar, não conseguia parar de pensar em tudo que aconteceu até ali e se indagar o que aconteceria dali para frente.
Minos permanecia imóvel, com os braços cruzados de frio, apenas observando e analisando cada gesto do cavaleiro. A respiração de Minos, gradativamente, se torna mais intensa. Logo ele está ofegante, sua cabeça lateja, seu corpo treme e está completamente dolorido. A febre havia subido mais ainda devido àquela água quente. Mesmo assim, não consegue desgrudar os olhos de Albafica, enquanto delira devido à febre.
Enquanto isso, Albafica está perdido em seus pensamentos, esquecendo-se da presença do espectro e continua a alisar seus cabelos.
Minos está completamente perdido nos movimentos do pisciano, como que hipnotizado. A febre o havia deixado em estado de transe, onde ele apenas via Albafica a sua frente. A reação de seu organismo ao veneno era horrível, mas Minos não sentia mais nada, desde quando se concentrou no rapaz.
O cavaleiro enxágua lentamente os cabelos. Não tinha pressa alguma em sair dali, afinal, poderia ser o último momento de paz que teria. Terminando seu banho, volta a fitar Minos e, constrangido, esconde novamente suas genitálias, tentando manter-se calmo, enquanto fala num tom sereno, como nunca havia falado antes com o espectro.
- Preciso de toalhas... - a voz de Albafica faz Minos acordar de seu transe.
- O que?! - o espectro pergunta, confuso.
- Toalhas! - Albafica engrossa o tom de voz.
O juiz suspira, voltando a realidade. Fecha os olhos, abaixando um pouco a cabeça de forma pretensiosa.
- Tem várias, escolha! - ergue a mão direita com a palma para cima, apontando para onde havia várias toalhas penduradas em ganchinhos. - Eu... preciso de um banho gelado... - fala para si mesmo, enquanto "nada" até a borda oposta. A dor em seu corpo estava insuportável. A febre era alta demais e sua cabeça parecia que explodiria a qualquer momento. Minos mal conseguia raciocinar. Ele sai do caldarium, se dirigindo à queda d’água natural, que ficava abaixo do grande Griffon desenhado na enorme parede de granito bruto. A água que saía de lá era gélida e quando Minos, literalmente, se tacou debaixo dela, soltou um gemido alto de dor e frio.
Albafica sai do caldarium, caminhando pelas escadas. Vai até as toalhas, seca-se superficialmente e enrola a toalha em sua cintura. Com outra toalha, seca seus cabelos.
- Onde encontro roupas? - fala um pouco alto para que Minos escute do outro lado do recinto.
Minos demora um bom tempo para responder, apenas se concentrando em tentar abaixar sua febre. Ele pega o shampoo que havia ali perto e passa nos cabelos, massageando-os com cuidado. Na realidade, estava louco para sair daquela água gelada, que chegava a lhe dar dor nos ossos. Mas sabia que precisava daquilo para abaixar a febre. Depois de enxaguar seus cabelos rapidamente, ele se esfrega com a esponja cheia de sais de banho e volta para debaixo d’água, onde fica mais um bom tempo. Quando se sente melhor, o juiz decide sair dali, indo em direção a Albafica. Sacode sua cabeça, fazendo o excesso de água voar. Sua franja picotada volta a se ouriçar, cobrindo seus olhos.
- Você ouviu o que eu falei? - Albafica pergunta, impaciente.
Minos apenas fita o cavaleiro, permanecendo calado. Passa direto por ele, indo até onde está pendurado seu roupão de banho e o veste. Depois disso, caminha vagarosamente, em direção ao quarto, indo até seu armário, onde pega uma peça de roupa bem básica: cueca, camiseta branca e short preto. Os veste.
Albafica caminha até onde outrora estava deitado e, por alguns minutos, cruza os braços impaciente. Leva as mãos aos cabelos, desembaraçando-os com os dedos.
Minos pega uma escova e começa a desembaraçar suas madeixas, que ainda pingam de tanta água.
- Sabe, Albafica... - o fita, enquanto penteia os cabelos. - Você realmente não percebeu a situação em que se encontra. Nesse caso, terei que mostrar-lhe o seu lugar. - o juiz continua falando num tom muito baixo, chega a ser uma voz doce e delicada.
- Já disse Minos, se continuar a me manter em cativeiro, me transformarei em um grande estorvo para você. - Albafica dá um sorriso maldoso enquanto fala.
Minos sorri diabolicamente e coloca a escova sobre a penteadeira, caminhando a passos lentos em sua direção. O espectro para, com o rosto a uns cinco centímetros de Albafica, enquanto este devia o olhar.
- Albafica... eu sei como fazer este seu sorriso orgulhoso e provocante desaparecer em questão de segundos... - diz o espectro, num tom baixo. Aproveitando-se que o pisciano virou seu rosto, aproxima-se de seu ouvido enquanto fala. Logo após, lhe dá uma delicada lambida, em toda a extensão de seu pescoço, fazendo Albafica se arrepiar. - Desmoralizar um homem e destruir seu ego é algo muito fácil para alguém que passou centenas de anos neste lugar... não me subestime, não sou juiz do submundo a troco de nada! - volta a sussurrar no ouvido do cavaleiro.
- Você me causa nojo! - Albafica fala, demonstrando todo o asco que tem do espectro, enquanto dá alguns passos pra trás
- Hum... parece que começou a entender, afinal. - Minos sorri, sarcasticamente.
- Não me toques nunca mais! - Albafica retruca, num tom de voz seco e raivoso.
- Receio que isso não será possível... - rapidamente, Minos o envolve com o braço em sua cintura, enquanto a outra mão vai à sua nuca, puxando-o com certa violência e o beijando a força.
Albafica se assusta com o ato do espectro. Seu corpo estremece e fica totalmente paralisado, em meio ao susto e surpresa. Ele não consegue mexer um músculo, tamanho o choque emocional que levou. Minos parecia beijar algo sem vida, vazio.
O juiz continua beijando-o intensamente, apertando seu corpo contra si. Continua a devorar os lábios de Albafica com muita intensidade, sem se importar com a reação do cavaleiro. Ele alisa o corpo do rapaz com cuidado. Seu toque é leve e delicado.
Finalmente, o pisciano demonstra alguma reação, quando desesperadamente, começa a empurrar Minos. Mas o espectro não recua nem um milímetro. Albafica está fraco, devido às algemas que o selam. O juiz, embora esteja muito febril e com fortes dores, ainda tem força suficiente para subjugá-lo.
O pisciano está desesperando. Era horrível sentir Minos o tomando para si daquela forma. Algo que ele jamais poderia imaginar, pois até então, ninguém nunca o havia tocado. Depois de muito lutar para tentar se afastar, Albafica percebe que nada do que faça irá adiantar. Está tremendo de medo, como um pequeno coelho encurralado pelo leão.
Ao sentir Albafica trêmulo, Minos se afasta um pouco, fitando-o com sensualidade. Embora o beijo tenha sido um pouco violento, ele tomou cuidado para não machucá-lo, afinal, não queria que Albafica tivesse seus lábios inchados, o que macularia sua beleza.
- Percebes agora, Albafica? A sua condição perante a mim? - permanece fitando os olhos do cavaleiro com muita serenidade, enquanto fala num tom baixo e gentil.
Albafica estava completamente ofegante e trêmulo. Seus olhos azuis se encontravam arregalados. Ele estava em choque e não conseguia falar nada.
Minos dá um riso baixinho de satisfação ao ver o estado emocional do rapaz. Não demora a se afastar, pegando a corrente e prendendo-a novamente no elo chumbado no chão. Ao se levantar, volta a fitar Albafica de forma inexpressiva.
- Mas eu não quero isso... tomá-lo a força não me satisfaria. - fala num tom sério.
Albafica cospe no chão, encarando Minos com uma expressão feroz.
- Como ousa fazer isso comigo?!
- Hum... você está muito provocante com esse olhar selvagem e seu tom de voz arredio, meu caro... será isso um "convite" para ir além? - Minos fala calmamente, num tom irônico e com um sorriso sarcástico, enquanto o tira de cima a baixo, como se o devorasse com seu olhar.
- Pare! - o pisciano grita, desesperado e completamente rubro de vergonha.
- E por que eu o faria? - Minos está se divertindo com o desespero do cavaleiro.
- Não sabe o asco que senti quando seus lábios se juntaram aos meus... prefiro a morte, o Cocytos, qualquer coisa do que ser totalmente seu! - Albafica não consegue mais controlar todo o ódio e revolta que está sentindo e continua gritando.
- Hum... você descrevendo deste jeito tão poético... me dá a entender que gostou! - o juiz dá uma risadinha debochada. Na verdade, Minos não está se agüentando em pé. Sua febre, seus espasmos e sua enxaqueca haviam lhe deixado no limite. Ele apenas estava brincando com o cavaleiro, se divertindo um pouco, para distrair sua mente do sofrimento que lhe aflige.
Albafica não agüenta mais toda aquela humilhação. Cai de joelhos, olhando para baixo.
- Por que isso?! Por que esse sofrimento foi destinado a mim?! - bate com as duas mãos no chão, com toda sua raiva. Acaba machucando-as, soltando um gemido baixo e encolhendo-as para perto de si.
- Meu caro, se você se comportar, eu não terei que fazer isso... eu acho... - apenas para mexer ainda mais com o emocional do cavaleiro, Minos finge que está pensando se deve ou não fazer. - Não... com certeza, não o farei sem um bom motivo. - volta a fitar Albafica, com ar de superioridade. - Mas se não souber o seu lugar, serei obrigado a lhe mostrar... e da próxima vez, não serei tão gentil. Eu sou um bom senhor, Albafica. Mesmo que não acredites, sempre tratei meus servos com respeito, desde que me obedeçam e cumpram seus deveres. Está com frio? - observa o cavaleiro, tirando-o de cima a baixo, percebendo que está ligeiramente arrepiado. Então, vira-se de costas, indo até seu armário. Pega uma veste cinza claro, de seda pura, algo muito bonito e fino. - Tome, vista-se, se sentirá melhor. - se aproxima do pisciano, esticando a mão com a roupa. Inexplicavelmente, Minos se sente mal ao olhar para Albafica amuado daquele jeito. - Prefiro quando está irritado... me diverte mais. Talvez eu deva prosseguir de onde parei, o que acha? – insinua, apenas para provocar Albafica e fazê-lo levantar a cabeça para encará-lo. Vendo que Albafica não se move, Minos abre a túnica, jogando-a sobre seu corpo, fazendo com que o fino e macio tecido escorra pela pele do rapaz.
Minos pensa um pouco chateado:
"Eu não sou um estuprador... em toda a minha existência, eu nunca fiz isso. Nunca precisei fazer, sempre tive todas as mulheres e homens que eu quis... mas eu sei o quanto isso apavora qualquer um. Com toda a certeza o deixou desesperado. Que mau juízo este homem tem de mim..."
- Você é desprezível, Minos! Ninguém conseguiria viver ao seu lado. - Albafica se mantém ajoelhado, sem forças, olhando para o chão. - Prefiro ser devorado por uma fera a me deitar com você... – completa, com um tom totalmente frio.
O espectro ignora completamente as palavras de Albafica. Agacha-se a sua frente, pegando gentilmente as mãos do cavaleiro e examinando-as com cuidado.
- Você machucou as mãos... está doendo muito? - ainda fitando as mãos de Albafica, enquanto as examina minuciosamente. Fala com delicadeza. - Não tens mais seu cosmo, Albafica. Não deveria socar o chão deste jeito... espero que não tenha quebrado. – balbucia, preocupado. As mãos de Minos estão queimando, de tão quentes.
Albafica puxa as mãos com certa violência. Não fala uma palavra sequer, apenas continua com seu olhar vazio e sem vida.
- Hum... vejamos... - Minos não dá a mínima para as reações do cavaleiro. Levanta-se, indo novamente ao seu armário. Pega um pote transparente, que contém uma pasta de coloração esverdeada e duas ataduras. Volta ao mesmo local, se agachando na frente do cavaleiro. - Dê-me a mão. - fala num tom severo, mas brando.
Albafica continua imóvel. Seus cabelos haviam coberto seu rosto.
- Saia de perto de mim! - murmura. Por mais que jurasse e tentasse, estava se sentindo um lixo, pisoteado e com o orgulho feito em pedacinhos.
- Se não me der sua mão, serei obrigado a agir com brutalidade, Albafica. Eu... não quero isso. - torce os lábios.
- Não quer?! Seu desejo é me ver sofrer! Por isso você me trouxe aqui. - o cavaleiro reage, revoltado.
Minos dá um pequeno e curto sorriso.
- Realmente, me divirto bastante com você... Há tempos não me divertia assim. Mas não pretendo machucar seu corpo, se é isso que está pensando. Já fiz isso antes e perdeu a graça. Do contrário, já teria perdido a paciência há muito tempo e lhe quebrado alguns ossos. Mas como pode ver, quero tratar seu ferimento, então, por favor, não me obrigue a agir indelicadamente. - a educação de Minos é exemplar. Até mesmo durante as batalhas, seu linguajar e postura se mantinham.
Ainda com certo receio, Albafica estica as mãos em direção a Minos. O espectro segura uma das mãos com muita delicadeza, alisando levemente a parte machucada, examinando-a.
- Bom... não está quebrada, mas com certeza irá inchar. - suspira levemente, enquanto passa uma boa quantidade do ungüento no local, esfregando com cuidado numa pequena massagem. O toque de Minos é macio, chegando a ser carinhoso.
Albafica torce um pouco os lábios e vira ligeiramente o rosto, evitando olhar para o espectro. O toque de Minos mexia com ele. Afinal, desde que seu mestre morreu, ninguém havia se aproximado tanto e ele sentia falta disso.
- Suas mãos são macias e finas... realmente muito delicadas. Como conseguiu mantê-las assim com o treinamento duro a que se submeteu? - Minos indaga num tom baixo, está realmente curioso. Mas as mãos de Minos não eram diferentes, possuíam a mesma textura e delicadeza. Minos pára de massagear a mão do cavaleiro e a enfaixa cuidadosamente, soltando-a em seguida e pegando a outra mão, fazendo o mesmo.
- Você me odeia porque ainda não engoliu sua derrota? - Albafica pergunta secamente, tentando cutucar a ferida de Minos.
Minos se mantém em silêncio até terminar de tratar a mão de Albafica. Quando termina de enfaixá-la, solta-a e senta-se no chão, com uma perna encolhida, apoiando um braço sobre ela, enquanto a outra permanece no chão, também dobrada. Fita o cavaleiro com sofreguidão, mas ele mesmo nem percebe. Ele suspira profundamente e pensa um pouco, antes de começar a falar.
- Não! Eu o odeio porque você está em mim. - pega gentilmente a mão do cavaleiro, levando-a até seu pescoço, que está queimando em febre. - Você habita cada célula do meu corpo. Invadiu-me e me tomou. É por isso que eu o odeio! - falando num tom baixo e calmo.
- Rosas têm espinhos. Às vezes esses espinhos penetram tão fundo, que é impossível retirá-los. - Albafica rebate, num tom seco e frio.
- Então, Albafica, eu também me tornarei uma rosa e cravarei meus espinhos em sua alma, até que não possas mais retirá-los. Serás como eu... marcado para toda a eternidade.
- Minos... - Albafica não tem mais palavras para debater com Minos. O que acabara de escutar era algo profundo. Aquela declaração de ódio eterno havia mexido com ele.
Minos se levanta, distanciando-se e guardando o pote. Dá mais uma olhada para o cavaleiro e deita-se, enquanto fala:
- Vista-se, tenho certeza que esta roupa lhe cairá bem. - deita-se de bruços, virado para os pés da enorme cama, cruzando os braços na altura da cabeça e recostando seu queixo sobre eles, enquanto fita o cavaleiro.
Albafica estava imóvel, pensando nas palavras que Minos lhe dissera e tentando achar o significado mais simplista e razoável possível. Ele sequer escuta a ordem de Minos, de tão distante que está sua mente.
- Hunf... me pediu uma roupa e agora fica assim, nu, se exibindo para mim... depois não reclame se eu o tomar a força. – ri, um pouco descontraído, enquanto faz troça do cavaleiro. Ele sabe que isso o despertará, e logo, Albafica se veste rapidamente.
Nem se passam cinco minutos e Minos já está dormindo. Estava exausto devido às dores que o acometem. Não demora muito, o juiz começa a gemer de dor e balbuciar algumas coisas, enquanto rola na cama muito inquieto. A febre estava subindo novamente.
Albafica pode ver as expressões de dor de Minos, que se encolhe esporadicamente, gemendo e colocando as mãos sobre algum local do corpo. Às vezes no abdômen, às vezes no tórax, às vezes na altura do ventre. Os movimentos de Minos são naturalmente delicados e leves. Minos conseguia ser ainda mais sensual enquanto dormia, mesmo estando cheio de dor.
Albafica não demonstra nenhuma compaixão pelo espectro, apesar de uma coisinha lhe incomodar bem lá no fundo. Algo que Albafica não compreende e classifica como "medo". Fita Minos por um bom tempo, depois ajeita-se no chão, fazendo de seus próprios braços, travesseiro. Mesmo deitado, permanecia observando o espectro, que às vezes se revirava na cama, suava frio e tinha a pele avermelhada devido à febre. Ver o espectro naquele estado fazia o pisciano se sentir mal. Então ele fecha os olhos, tentando esquecer-se de tudo, mas estava com um pouco de frio e o chão não era nada confortável. Ele estava muito agitado. Suas dúvidas, seus medos e flashbacks de tudo que ocorreu, não deixam Albafica dormir.
"Aquele beijo... eu pensei que ele realmente me tomaria a força..." - Albafica sente um calafrio só de lembrar. Aquilo lhe causava pânico. O que não deixava de ser uma ironia, já que durante grande parte de sua vida ele odiou seu sangue, por não poder sentir o toque de alguém. Seus pensamentos voam e tiram o sono do pisciano, que já não tinha muita liberdade para se movimentar e estava de mau jeito. Mas uma curiosidade incomodava Albafica mais que tudo:
"Por que em determinados momentos ele parece ser tão gentil e carinhoso? Se ele me vê como escravo... por que tratou dos meus ferimentos? E já que quer tanto me humilhar, por que não me tomou? Não é do feitio dele fazer este tipo de coisas a um escravo... aquela febre... será que tem algo a ver com a tal marca que Minos falou? O que está acontecendo com ele, afinal?"- o cavaleiro demorou muito a pegar no sono, até que finalmente foi vencido pelo cansaço.
E foi assim que se passou o primeiro dia da ressurreição de Albafica.
Albafica está cheio de dúvidas e temores, a humilhação a que é submetido destroça cada vez mais seu orgulho. Mas em contrapartida, o cavaleiro estranha o tratamento distinto do juiz. O que será que Minos pretende afinal? Até onde o juiz pretende levar esta história?
Próximo capítulo: "Perigo à Espreita"
Continuem ligados.
Minos de Griffon

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