"Recuperação Conturbada"
Minos recobra a consciência lentamente e, ao tentar mover seus braços, solta alguns gemidos baixinhos de dor. Abre seus olhos com lentidão e reconhece imediatamente o rosto da pessoa em pé ao seu lado.
- Luco... - balbucia o juiz, ainda atordoado.
- Minos-sama, fico feliz que finalmente tenha acordado! - diz o espectro de Dryade, que não perdia a concentração, mantendo seu cosmo estável enquanto fazia algum tipo de terapia no corpo do juiz. O espectro passa uma flor branca sobre os ferimentos de Minos, enquanto concentra sua energia cósmica nela e deixa que escorra da planta um tipo de seiva, que cai sobre os ferimentos. - Já faz dois dias desde que perdeu a consciência...
- dois dias...? - pergunta Minos.
- Ah... Dois dias. Quando cheguei o encontrei à beira da morte. Perdeu muito sangue e suas feridas eram graves. Mas não se preocupe, já está bem melhor. - enquanto falava, Luco não tirava os olhos do que estava fazendo. Sua voz é serena e centrada, o que acalmaria qualquer um na situação em que o juiz se encontra.
- E Albafica, como ele está? - Minos fica apreensivo. Está mesmo preocupado com o estado de saúde do pisciano.
- Ah... Peixes... Ele está estável, não se preocupe. Pelo menos no físico, agora está bem melhor que o senhor.
- Onde ele está? Preciso vê-lo! - Minos tenta se levantar, mas é tomado por uma forte dor no abdômen que o impede. Tudo que consegue fazer é relaxar o corpo, enquanto solta mais um gemido dolorido.
- Acalme-se senhor, estou cuidando dele como me foi ordenado, e também o mantenho onde o senhor pediu. - afirma o espectro, se divertindo um pouco com a ansiedade do juiz. - Não se mexa, por favor. Preciso terminar esta sessão de terapia. Além do mais, se quer ver o cavaleiro, basta olhar para o lado.
No reflexo às palavras de Dryade, Minos rapidamente vira o rosto na direção em que o espectro olhara e vislumbra a face serena de Albafica, que dormia tranquilamente ao seu lado. Depois de constatar a presença do cavaleiro respira aliviado e se põe a observar tudo ao seu redor, tentando se situar. Estava em outro aposento da gigantesca casa do julgamento. A arquitetura do local era um espelho de seus aposentos, a única diferença era a disposição contrária de todos os cômodos, pois sua localização era exatamente inversa, na outra extremidade da casa. Se não fosse pela decoração rústica amadeirada, bem contrária a de seus aposentos revestidos em granito e mármore, Minos poderia se sentir em seu próprio quarto, pois todos os seus pertences estavam na mais perfeita ordem. Então, o juiz volta a fitar Albafica, admirando aquele rosto que ainda continha algumas lembranças da agressão sofrida.
- Relatório! - diz o juiz, em tom autoritário. Mais uma vez, Griffon tenta se mexer, mas é impedido por Luco.
- Senhor, mais uma vez peço que se acalme. Não quero ter que lhe sedar para que possa continuar o meu trabalho. Assim que eu terminar, lhe direi em minúcias sua situação.
- Não estou falando de mim, sei exatamente o estado de meu corpo. Quero que me relate o estado de saúde de Albafica.
- Mudo bem... Mas eu lhe disse que não há com que se preocupar. Segui rigidamente suas recomendações: não o tiramos de perto do senhor um só instante, como ordenou. Seus ferimentos são graves, mas ele já se estabilizou. O problema foi a hemorragia interna, devido ao rompimento de vasos sanguíneos em alguns órgãos, mas isso já foi contornado, como eu disse antes. De resto, são só alguns arranhões e cortes superficiais, hematomas por seu abdômen e peito, alguns galos na cabeça e um pé torcido. Mas infelizmente, tive que sedá-lo para poder tratar de suas feridas, pois ao menor sinal de toque ele reagia, mesmo estando inconsciente. E obviamente, mesmo que acorde eu sou a ultima pessoa que ele permitiria tocá-lo, pois já nos encontramos em campo de batalha.
- Você disse... Minhas recomendações? - é a segunda vez que o espectro menciona isso, mas só agora que saía de seu torpor mental, Minos realmente prestou atenção.
- Não se lembra, senhor? Quando cheguei e o encontrei caído, imediatamente fui lhe prestar socorro... - Luco explicava calmamente, enquanto mantinha-se totalmente concentrado. Era realmente habilidoso no que fazia; suas mãos eram verdadeiros instrumentos de cura, mas também podiam se tornar armas letais, assim como seu conhecimento sobre ervas que curavam ou matavam, de acordo com sua vontade.
*Flashback*
Lune, à frente dos outros dois que o seguiam, adentra os aposentos de Minos e vê seu senhor caído numa larga poça de sangue ao chão, do lado da cama onde Albafica se encontrava inconsciente. A visão que tem do quarto é aterradora. Além dos estragos feitos por Minos, também havia marcas de sangue por todo o lugar; marcas vermelhas de mãos, que escorregaram durante a resistência de Albafica por todas as paredes, juntamente com grandes manchas de sangue escorrido. Havia as mesmas marcas no chão, junto a algumas "pequenas" poças de sangue, também próximo às paredes. E uma poça bem maior na entrada da porta, que seguia adentro em pegadas; e grandes pingos vermelhos, iguais ao rastro que Lune seguiu desde o local da batalha até o quarto de Minos. Com certeza era o sangue do juiz.
- Minos-sama! - Balron invade o recinto sem pensar duas vezes, indo em direção a Griffon.
- Não toque nele! - grita em tom de advertência o espectro que o seguia de perto, juntamente com Byako. - Ele está com hemorragia e se o movermos agora não irá resistir. - o espectro de Dryade se aproxima rapidamente, se abaixa e começa a examinar o corpo do juiz, enquanto Lune e Byako apenas observam, revoltados com o que presenciam. - Preciso estancar a hemorragia e só então poderemos tirá-lo daqui. Ele está muito pálido, perdeu muito sangue, é incrível que ainda resista. Farei tudo que puder.
- Por favor, Luco, contamos com você. - diz Byako, que está bastante tenso com o estado crítico de seu mestre.
"Eu nunca vi meu senhor lutar de modo tão displicente e irresponsável... Em que Minos-sama estava pensando, afinal?" - Lune estava muito incomodado com tamanha loucura de Minos. Também com muita curiosidade, fitava Albafica deitado na cama. - "Este homem... Foi por causa dele que meu senhor abandonou o campo de batalha? Minos-sama nunca recuou diante um inimigo! O que aconteceu aqui, afinal?"
Quinze minutos foi o tempo que Dryade levou para conseguir estancar a hemorragia e estabilizar o juiz enfermo. Todos se surpreenderam ao ver Minos reagir entre reflexos de suas mãos e alguns gemidos, antes de abrir levemente os olhos cansados.
- Alba... fica... - Griffon geme baixo, de forma quase inaudível, o nome do cavaleiro. - Como... Ele está?
- Minos-sama! - os três espectros falam em uníssono.
- Cuidem dele... Não o deixem morrer! - Minos balbuciava, em meio ao delírio.
- Não se preocupe meu senhor, nós o colocaremos em um local seguro e cuidaremos para que sobreviva. - Lune responde, estreitando os olhos ao ter certeza do que está acontecendo.
- Não! Não o tirem de perto de mim! Nem por um segundo, para nada! O mantenham comigo! - Minos aumenta seu tom de voz, forçando-se; assustando os espectros, enquanto regurgita um resto de sangue que ainda havia em sua boca.
- Senhor, acalme-se... Eu cuidarei do cavaleiro, se é assim que quer, mas não se exaspere. - Luco segura Minos, que tenta em vão se levantar. - Não se esforce, ou vai piorar sua situação. Acabo de estancar sua hemorragia a muito custo, e pode voltar a sangrar com movimentos como estes.
- Luco... Cuide de Albafica, cuide dele imediatamente. Não deixe que ninguém além de você ou Byako o toque. E tome cuidado ao manipular o sangue dele, não o purifique. - Minos se esforça muito para falar e vomita as palavras com muita urgência, percebendo que está perdendo os sentidos novamente. - Isso é uma ordem! - o juiz fala e, logo em seguida, perde os sentidos.
Os espectros se entreolham, pasmos com as ordens dadas pelo juiz e sua excessiva preocupação. Afinal, o juiz sempre dissera: "os fracos só servem para divertir-nos, não merecem nada além de ser manipulados e mortos, para arrepender-se de suas fraquezas no inferno".
- O que faremos? - Byako fita Lune nos olhos, percebendo a tristeza do espectro de Balron.
- Hunf... Seguiremos as ordens, claro. - contrariado, Lune responde, fechando os olhos com força e virando um pouco seu rosto.
- Mas Lune-sama, o senhor...
- Cale-se, Byako! – rapidamente, Balron interrompe Byako, antes que o mesmo diga algo que o deixe constrangido. Lune tenta manter sua postura inexpressiva de sempre, mas no fundo, está cheio de ciúmes e raiva. Byako sabe disso melhor que ninguém. - Não tenho nada com esta história. Sou o braço direito de Minos-sama e em sua ausência, devo cuidar para que tudo saia conforme suas vontades. O escravo permanecerá ao lado de nosso mestre e Luco cuidará de seus ferimentos, isso é tudo.
O espectro de Dryade, que apenas escutava tudo abismado enquanto, contra sua vontade, examinava Albafica, estreita os olhos, desconfiado do que acabara de presenciar. "Afinal, o que está acontecendo aqui?"
*Fim do flashback*
- ...Então, segui suas instruções. Assim como os transportamos para os aposentos que Markino preparou. - Dryade conclui, depois de lhe descrever os acontecimentos.
- Ah... Entendo. - Griffon ficou atordoado com o que ouvira. Ele realmente não se lembra de dar qualquer ordem, nem mesmo de ver Luco naquele dia. Aliás, a última coisa que se lembra é de estar velando o sono de Albafica e ver o chão se aproximar, quando começou a sentir-se muito cansado e fraco. - "Eu realmente disse isso tudo? Ai, minha cabeça dói, não me lembro de nada!" – então, Minos se acalma e apenas observa o tratamento do espectro. - De qualquer forma, não o obrigue a nada. Não quero que se sinta acuado.
- Mas senhor, eu preciso tratá-lo. E como eu disse, mesmo inconsciente, ele reage quando alguém o toca. Tive que usar minhas técnicas para sedá-lo e conseguir tratar de seus ferimentos; e também, para removê-lo até aqui.
- Se ele não permite que o toque, então o mantenha sedado e faça o que tem que ser feito. Não me traga problemas maiores dos que já tive. - diz Minos em tom incisivo, usando de toda a sua autoridade, sem se importar com o que o espectro pensaria a respeito. - Mantenha-o sedado, assim ele permanecerá calmo. E diga a Byako que não se ausente mais daqui. Quero que ele vigie a entrada de meus aposentos e não permita que ninguém, além de você e Lune, entre.
- S-sim senhor. - o espectro, confuso, não consegue manter sua concentração ao ouvir as ordens de Minos; mais uma vez estava abismado com a atitude do juiz. - "Hum... Pode ser impressão minha, mas... Não, não pode ser! Minos-sama não é esse tipo de pessoa. Apesar de que ele está tão estranho... Manter este cavaleiro tão perto de si; ordenar que seja tratado desta forma, mesmo sendo um escravo... Fora a preocupação que ele exprime e o modo como fala dele. Aliás, como ele consegue permanecer ao lado desse homem venenoso por tanto tempo, sem ter qualquer reação a seus vapores? Eu mesmo tenho que usar minhas suzuran para manter-me imune... De qualquer forma, não devo pensar nestas coisas. Sou um subalterno e apenas cumpro as ordens, sem questionar."
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Três dias se passaram desde o incidente. Albafica recobra os sentidos lentamente e abre seus olhos ao perceber que alguém o tocava no abdômen. O pisciano, que ainda sente os efeitos dos sedativos, tem sua mente entorpecida e demora um pouco a visualizar o homem à sua frente, bem como se lembrar de tudo que ocorreu. Aquela face lhe era muito familiar e um sentimento de nostalgia toma conta de seu coração.
"Esse rosto..."
- Está acordando... - o homem diz, com aquela voz que há muito Albafica não escutava.
"Essa voz... sensei!"
- Lugonis-sensei... - o cavaleiro balbucia fracamente, projetando um sorriso discreto, enquanto sente seu coração se inundar de calor.
- Hum... Vejo que ainda não me reconheceu. Mais uma vez se engana com minha aparência, cavaleiro de peixes. - o homem responde calmamente, enquanto continua a concentrar seu cosmo, tratando dos ferimentos do pisciano.
"Não... Não é meu mestre!" - Albafica arregala os olhos ao reconhecer aquele cosmo e um calafrio percorre sua espinha. Rapidamente, o santo de Atena se levanta, deixando-se tomar por certo pânico. Bate com força na mão que o toca, afastando-a com violência. - Não toque em mim, maldito! - grita com ódio e totalmente ofegante, enquanto se prepara para partir para cima do espectro de Dríade à sua frente. Sequer se importa com as dores fortes que sente em seu corpo pelos movimentos rápidos que acaba de fazer. Prepara um murro que vai em direção ao espectro, o qual fica atordoado com sua reação arredia e violenta. Mas para sua surpresa, alguém segura seu punho com força, travando o golpe instantaneamente. Assustado, Albafica vira o rosto na direção de quem o impediu. Fica confuso e sem reação ao ver o juiz de Griffon, que ainda segurava com força seu pulso e mantinha-se com a cabeça levemente baixa, com a franja lhe cobrindo os olhos. - M-Minos... - balbucia surpreso.
O juiz levanta a cabeça, fitando-o com um olhar enigmático. Acena negativamente e solta o braço do cavaleiro, empurrando-o levemente para que volte a se deitar. Albafica, ainda sem saber o que fazer, simplesmente obedece aquele delicado empurrão, deixando seu corpo ir ao colchão, enquanto se vê hipnotizado pelas sedutoras orbes arroxeadas do Kyoto.
- Maldito! Não pense que isso... - Luco começava a falar, quando sente o olhar assassino que Minos lança em sua direção. Vira o rosto, encontrando o olhar repreensivo, que o faz engolir seco, verdadeiramente assustado. O espectro de Dryade fecha os olhos e respira fundo, volta a fitar Albafica e já em um tom de voz baixo e calmo, continua: - Esqueça... Apenas estou cumprindo ordens de Minos-sama. Deixe-me terminar logo seu tratamento para que possa me retirar de uma vez. Cuidar de você não é algo que me agrade.
Albafica permanece fitando o espectro, desconfiado e apreensivo. Monitora atentamente cada gesto e modulação do cosmo de seu antigo inimigo. Seu coração dolorido está acelerado e seu corpo, trêmulo.
Durante todo o tempo, Minos não tira as vistas dos dois e Albafica sente claramente os olhos do juiz sobre si. De certa forma, saber que o juiz está presente lhe deixa um pouco mais seguro, embora não tenha coragem de voltar a olhar para ele ou dizer-lhe algo.
"Aquele olhar, cheio de ódio e revolta... Não quero vê-lo novamente! Não agora. Não com a dor que sinto em minha alma, enquanto preciso urgentemente de um olhar carinhoso. Quando quero desesperadamente que, pelo menos uma vez, ele me olhe de outra forma..." - o pisciano se esforça ao máximo para conter sua vontade de chorar e expor toda a dor e tristeza que habitam seu coração, mantendo-se firme, com um olhar vazio. Aos poucos, o pisciano sente seu corpo ficar mais leve e um torpor toma conta de si. Ao perceber que Luco o está dopando, tenta reagir. Mas é tarde demais, sua voz não sai e seu corpo já não o obedece. O pisciano volta ao sono forçado.
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Já haviam se passado cinco dias. Tanto Minos como Albafica já estavam melhores, pelo menos fisicamente. Ambos já conseguiam ficar de pé, mesmo com alguma dificuldade em fazê-lo. Mas o pisciano ainda era mantido à base de sedativos, pois não admitia que ninguém se aproximasse e muito menos o tocasse; principalmente quando Minos estava dormindo ou se ausentava para banhar-se. Quando os dois estavam acordados ao mesmo tempo, um silêncio gritante tomava conta do ambiente. Nenhum dos dois era capaz de dirigir uma palavra ao outro. Sequer se olhavam nos olhos. Albafica sempre mantinha a cabeça baixa, esperando que o juiz lhe dissesse algo; Minos o evitava a todo custo, rezando para que o pisciano nada falasse.
"Ele está me evitando desde que recobrei a consciência..." Quando, por algum motivo, o pisciano percebia os olhares de Minos sobre si, o que era raro, levantava os olhos em sua direção, mas o juiz desviava imediatamente seu rosto. - "A única vez que se dirigiu a mim, foi para impedir-me de esmurrar Dryade. Mesmo assim, não disse uma única palavra. Todo este cuidado... Aonde quer chegar desta vez?" - lhe era muito estranho estar na mesma cama que Minos; aliás, estranhou até o fato de estar em uma cama, já que desde sua chegada era mantido acorrentado e forçado a dormir no chão, como um animal. Todo aquele cuidado o deixava intrigado. - "Por que me mantém aqui ao seu lado e não fala nada? Droga... Estou tonto e febril, não consigo raciocinar direito!"
Ambos estavam na cama. Minos recostado na cabeceira cheia de travesseiros macios, que o deixava muito confortável e Albafica deitado, ainda atordoado com os efeitos das drogas que Luco lhe administrou. Griffon tinha muitos livros aos seus pés e mantinha um deles sobre suas pernas cruzadas. Fazia anotações e assinava alguns documentos importantes, para despachá-los através de Byako, que ia e vinha com mais e mais livros e documentos. Sequer olhava para os lados. Procurava manter-se concentrado no trabalho e ignorar Albafica ao seu lado; tarefa realmente impossível para o espectro, que sentia a todo tempo os olhares curiosos do pisciano sobre si. Aquilo o incomodava, fazia seu corpo estremecer e arrepiar de tempos em tempos. Agradecia por estar vestindo suas costumeiras vestes longas, de mangas compridas e largas, que impossibilitavam ao cavaleiro perceber as reações involuntárias de seu corpo.
"O que ele tanto olha? Isso é perturbador! Espero que não diga nada... Não estou em condições de escutar qualquer acusação que venha dele. Não suportaria..." - o Kyoto, que há muito se tortura com as lembranças do ocorrido e o sentimento de culpa, suspira e larga sobre o livro a pena que usa para escrever. Leva uma das mãos ao rosto, passando os dedos indicador e polegar sobre os olhos até a base do nariz, segurando-a enquanto mantém os olhos fechados com força, tentando espantar aquela estranha sensação que o abate. - "O olhar agressivo e desesperado que ele deu a Luco... É completamente diferente do olhar pelo qual... - levanta a cabeça, soltando um estranho grunhido assustado, e revela seus olhos trêmulos, fixando-os no nada, em reflexo ao que acabara de lhe ocorrer, enquanto uma sensação forte de perda toma sua alma e o coração se acelera. Seus olhos umedecem e Minos engole o choro, que sobe repentinamente por sua garganta. – “Aquele olhar determinado e indomável... Perdeu o brilho! O olhar que eu... Amo tanto... Eu amo?!” - volta um olhar assustado e surpreso para Albafica, que já o fitava a um bom tempo. O juiz respira fundo e estreita os olhos, com ódio de si mesmo. - "Droga! Eu o amo! Eu amo esse maldito! Como deixei isso acontecer?! Inferno!”
"Mas que olhar é esse?! Em que ele está pensando agora?" - Albafica estremece quando o olhar de Minos cruza-se com o seu. Levanta-se rapidamente, se apóia nos cotovelos e devolve-lhe um olhar arisco. Ao ver seus olhos estreitando-se, não consegue evitar o temor ao cogitar que, mais uma vez, seria humilhado. Fica com raiva de si mesmo ao sentir seu coração doer. - "Droga! Ele vai me expulsar novamente! Vai me humilhar e me enxotar, como um cão vira-latas! No estado em que me encontro, não vou conseguir suportar isso!"
Hesitante, Minos leva vagarosamente a mão a Albafica. Este, ao ver a aproximação, se encolhe um pouco e o fita, paralisado e hipnotizado pelo olhar enigmático que lhe era lançado. O juiz desiste de tocá-lo ao perceber o temor do cavaleiro e recolhe a mão, afastando-se. O pisciano vira-se e deita na direção oposta, fechando os olhos e cobrindo a cabeça com o lençol.
"Sequer suporta a idéia de ser tocado por mim, nem consegue... Ele me odeia." - dá um sorriso triste e conformado, enquanto fecha levemente os olhos e suspira profundamente, ainda tentando controlar a dor que insiste em consumir sua alma. - "Igual quando segurei seu braço... Ficou tão assustado que sequer reagiu. Para ele, não passo de um espectro como qualquer outro. É melhor continuar evitando qualquer tipo de contato. Talvez não devêssemos ficar tão próximos."
"Eu vim o mais rápido que pude... imaginando o que estava acontecendo de tão grave para fazer meu coração apertar, a ponto de me desconcentrar durante uma batalha..." - as cenas do ocorrido e o que foi dito por Minos ecoam em sua mente, enquanto sente que o juiz o observa. O cavaleiro se atormenta com suas dúvidas e incertezas. - "Minos... O que quis dizer quando falou que seu coração apertou? Você é capaz de sentir meu desespero? É isso? Minos... Eu consegui sentir você! Senti toda a fúria e confusão que tomaram conta de seu coração. Senti seu cosmo oscilar incrivelmente, entre o seu máximo e o nada. Senti toda a revolta que seu cosmo emanou ao entrar por aquela porta e golpear Mandrágora. Mas ódio de quê? Claro... De alguém lhe tomar seu brinquedo preferido... Como sou idiota!"
Minos volta a abrir o livro e tenta continuar seu trabalho, mas os pensamentos perturbadores não o deixam se concentrar.
"Droga, Albafica! Por que tive que conhecê-lo? A culpa é sua! Me fez perder a cabeça, quase morri por sua causa. Matei aquele infeliz e, com certeza, Rhadamanthys virá tomar satisfação por isso. E mesmo depois de tudo que fiz você me odeia! Inferno! Por que tinha que ser um santo de Atena?!" - As palavras de Fiodor ecoam em sua mente, lhe dando calafrios. - "Você não é diferente de mim! É um espectro tão sádico e cheio de ódio quanto eu!" - Minos trinca os dentes de ódio, enquanto sente seu peito apertar ainda mais. - "Eu não sou assim!"
"A partir do momento em que você ousou invadir meus aposentos e tocar em Albafica, eu posso fazer o que quiser com você... Vou quebrar todos os seus ossos e ensiná-lo como se deve tratar uma rosa delicada como Albafica!" - as palavras ditas por Minos ao espectro de Mandrágora afetam o pisciano, mais do que tudo que ele sofrera na ocasião. E o cosmo revolto de Minos ao seu lado deixa Albafica apreensivo. - "Uma rosa delicada"... Afinal, o que você quer com esta "rosa delicada"? Por que me vê assim? Por que tanto cuidado comigo? O que significo para ti? Por que me salvou? Minos... Toda aquela ira se deve a que? Ao seu sentimento de posse? O que passa pela sua cabeça? O que? E o que significa este cosmo que sinto agora? Está com raiva de mim? Talvez tenha nojo por me ver naquele estado deplorável! Quero tanto saber... E ao mesmo tempo tenho medo."
"Albafica, você deve me culpar por tudo que aquele maldito lhe fez... Com certeza acha que sou igual a ele e deve estar com nojo de mim!" - Minos não consegue deixar de pensar no que fez ao pisciano um dia antes da tentativa de estupro de Fiodor e comparar-se a ele. - "Eu estou com nojo de mim! Como pude chegar ao nível daquele verme? Como?! Por que fiz aquilo? Como fui estúpido!"
“Invadiu os aposentos de um dos três juízes, tentou tomar o que tenho de mais precioso e ainda ousa me enfrentar... Traidor!" - Albafica não consegue entender por que, depois de tudo que disse e fez, Minos o evita tanto e, ao mesmo tempo, o mantém tão perto. Está agoniado com o silêncio do juiz e não consegue evitar que lágrimas escorram por sua face. O pisciano fica agradecido por ter coberto a cabeça, podendo manter o pouco do orgulho e integridade que ainda possui, se é que ainda os tem. - "Se sou o que tem de mais precioso... Então por quê? Por que não fala comigo? Por que não olha em meus olhos? Por quê? De que forma eu sou precioso para você? Como um brinquedo caro que lhe foi dado por seu maldito deus? Minos, por favor, olhe para mim! Fale alguma coisa! Não aguento mais seu silêncio... Está me matando!"
"Não aguento mais isso! Esse silêncio está me matando! Esta culpa está me dilacerando por dentro! Não posso mais permanecer calado... Preciso dizer a ele! Preciso escutar o que ele tem a dizer!" - Griffon não aguenta mais aquela situação e os sentimentos que o afligem tanto. Resolve finalmente dar um fim nisso e fecha o livro, colocando-o no chão junto com os outros. Desencosta e se vira para Albafica, permanecendo sentado. - "Albafica terá que me escutar e eu o farei falar comigo nem que para isso tenha que provocá-lo!"
- Minos-sama! - Markino bate à porta, fazendo Minos e Albafica despertarem de seus pensamentos.
- Markino! Eu espero que seja importante ou esteja pronto para ter todos os seus ossos quebrados, até os metacarpianos! - Minos fala baixo num tom irritadiço, rompendo seu silêncio. - Não me esqueci de sua falha e ainda pretendo puní-lo... Mas com o ódio que estou de você, sou capaz de matá-lo de uma vez!
- M-mil pe-perdões Mi-Minos-sama - o espectro engole seco e gagueja, ao pensar que talvez fosse melhor Lune ter mandado outra pessoa em seu lugar. Amaldiçoa Balron por forçá-lo a ir pessoalmente. - E-eu vim trazer a janta, como tenho feito estes dias.
- Ah... Claro, a janta... - o Kyoto torce os lábios e suspira, tentando se acalmar, passando as mãos nas têmporas. - Entre de uma vez e saia o mais rápido possível!
- S-sim senhor... - Markino entra no quarto empurrando o carrinho, que estava repleto de frutas, um salmon grelhado, grãos, diversos tipos de saladas e molhos. Serve ambos, Albafica e Minos, arrumando tudo nas bandejas de cama e servindo o vinho branco seco, que era obrigatório nas refeições do juiz. Logo se retira, deixando o carrinho no local para caso queiram se servir novamente. O espectro estava com tanto medo que sequer ousava respirar. Só o fez ao cruzar pela porta e fechá-la atrás de si. - Com sua licença.
Griffon apenas o fita durante todo o tempo, esperando que saia logo do local e controlando-se para não quebrar-lhe os ossos. Estava com tanta raiva do espectro que durante aqueles dez minutos, pensou em milhares de maneiras diferentes de torturá-lo e todas levavam à morte. Quando Markino desapareceu de suas vistas sentiu certo alívio, pois se o matasse, seria difícil arrumar outro para guiar as almas penadas à casa do julgamento; fora a fiscalização dos escravos, pois Markino era um tipo de mordomo da casa e mantinha tudo em sua mais perfeita ordem.
"É verdade... Isso daria muita dor de cabeça." - Minos desperta de seus sádicos devaneios e volta à realidade quando Markino fecha a porta. - "Melhor deixá-lo vivo... Pensarei em outra maneira de punir este energúmeno." - concentra-se na janta e delicia-se com o vinho branco de ótima safra.
Albafica, que havia se sentando quando foi servido, sequer toca na comida. O cavaleiro não comia nada desde que acordara e Minos já tinha percebido isso. O juiz termina seu jantar e fita o prato intocado ao seu lado.
"Mais uma vez não comeu nada. São quase seis dias sem comer, com certeza já está muito enfraquecido." - Minos fita Albafica, que está encostado na cabeceira da cama, de cabeça baixa e com a franja cobrindo-lhe os olhos. - "Ele precisa comer algo ou morrerá de inanição." - Minos olha para a posta de salmom, lembrando-se do primeiro jantar que tiveram juntos. Coloca sua bandeja no carrinho e vira-se para o pisciano. Leva a mão a uma maçã que estava na bandeja de Albafica e a pega com cuidado, dando uma pequena mordiscada, enquanto lança um olhar terno para o pisciano. Isso chama a atenção do cavaleiro, que levanta os olhos e, desanimado, observa o juiz morder a maçã e oferecê-la silenciosamente, esticando a mão em sua direção. Albafica se surpreende com tal atitude. Sente seu coração disparar observando os movimentos dos lábios de Minos, enquanto este mastiga e engole o pedaço da fruta.
"O que ele quer, afinal? Por que me oferece esta maçã, Minos?" - confuso, o cavaleiro fita a maçã e Minos repetidas vezes. O espectro insiste, abrindo a palma da mão, enquanto mantém seu olhar tranquilo e sedutor ligado às orbes confusas do jovem santo. Um pouco hesitante, Albafica pega a maçã da mão do Kyoto e leva à boca, dando uma mordida sem desviar o olhar. Logo, é recompensado com um meio sorriso. - "Por que está fazendo isso? Não entendo... Suas atitudes me confundem."
Griffon fica um pouco aliviado ao ver Albafica aceitar a fruta e comer. Então, pega o garfo e desfia um pedaço pequeno do peixe, levando-o à boca. Volta a fitar o pisciano. Começa a provar tudo que está no prato de Albafica, fitando-o a cada coisa que prova. Ao terminar, estica a mão oferecendo-lhe o talher, ainda com o mesmo sorriso torto e discreto e um olhar carinhoso.
"O jantar!" - em um estalo, Albafica arregala os olhos ao se lembrar do jantar, quando fizera Minos experimentar toda a comida que escolheu. Pega o garfo delicadamente das mãos do Kyoto. - Minos...
- Albafica eu... - Griffon interrompe o que ia falar. Fita com o canto dos olhos a porta da sala de jantar, que se encontrava entreaberta, e afasta-se do santo de Atena. - Quem está aí?!
Albafica estremece ao ver a mudança repentina de humor de Minos, que voltara a ter aquele olhar estreito, frio e maldoso. Também olha na direção da porta, para entender quem era o responsável pela súbita mudança de temperamento.
- Perdão, Minos-sama... Eu não queria interromper seu jantar. - Luco já estava ali há tempo suficiente para ver toda a cena. Na verdade, ele estava para bater à porta e anunciar sua presença, quando viu Minos oferecer a maçã ao pisciano. - Vim preparar seu banho de ervas medicinais e trocar seus curativos.
- Entre! - contrariado, o juiz levanta-se vagarosamente da cama e fita rapidamente Albafica. Logo após, volta-se novamente ao espectro que adentra o quarto. - Por quanto tempo ainda precisarei disso?
- Não muito. Creio que daqui a uma semana não estarei mais aqui. - diz Dryade, preocupado com a reação do juiz.
"Uma semana? Mais uma semana? Não posso acreditar nisso!" - Minos acirra o punho discretamente e usa seu tom autoritário e ameaçador, fitando Dryade com um olhar perigoso. - Por mim já não estaria aqui. Não gosto que invadam minha alcova, muito menos de ser observado. Não volte a fazer isso, entendido?
- Minos-sama, não há necessidade deste tom. Sou um espectro, mas também sou médico. Não é de meu feitio espionar a vida pessoal de meus pacientes... Também não seria de bom tom falar a outros sobre as coisas que meus pacientes me permitem saber. Meu código de ética ainda é o mesmo. - Dryade se mantém formal, enquanto mantém o olhar sério preso nas íris arroxeadas do juiz. - Apenas resolvi esperar que terminasse seu jantar, para não lhe causar algum mal estar.
- Ótimo, gosto disso. - Minos continua encarando Luco friamente. – Então, por gentileza, prepare meu banho e faça o que tem que ser feito.
- Naturalmente, Minos-sama. - o espectro inclina-se um pouco, pondo o braço direito à frente do abdômen, em um cumprimento formal. Logo, se retira em direção ao banheiro. - O chamarei assim que estiver pronto.
- Tsc! - Minos leva os dedos à sua testa franzida, acariciando-a delicadamente para tentar se acalmar. Volta um olhar gélido ao pisciano, que apenas observava tudo calado. - "Não acredito que terei que suportar tal invasão de privacidade por mais uma semana... Essa situação está insustentável!"
"Minos... Como pode me olhar assim novamente?” - Albafica não consegue compreender a mudança repentina de humor do juiz. Apenas o observa, esperando que diga algo, mas não ouve nada além do barulho da água que enche o ofurô no banheiro. O santo de Atena larga delicadamente o garfo sobre a bandeja e a afasta de si, sentindo um aperto no coração. - "Como consegue passar de um olhar carinhoso para este olhar frio e maldoso em apenas segundos, e ainda me tratar tão friamente? Você está jogando comigo... Me manipulando, como sempre fez com todos! Brincando com meus sentimentos e se divertindo com isso! Era isso que você queria o tempo todo... E eu, idiota, me deixei mais uma vez ser pego em seus fios e tornei-me sua marionete... Patético!"
"É melhor que não me aproxime de Albafica... Pelo menos por enquanto, até ter certeza de que ninguém mais nos observa ou irá nos interromper." - o Kyoto finalmente fala, numa voz seca e autoritária, fitando as tristes íris azuis escuras. - Coma! Se adoecer, me dará mais dor de cabeça... Portanto, coma! É uma ordem! - dá as costas para Albafica e se retira em direção ao banheiro. - "Merda! Justo agora, que achei que conseguiria fazê-lo falar comigo! É melhor esquecer isso... Passarei os próximos dias trabalhando em meu escritório. Quem sabe assim ele fique mais calmo e consiga comer em paz. Se adoecer, será um problema. Além de ter que aturar a presença de Luco, me trará mais preocupação do que já tenho com ele."
"Como pode agir tão friamente e demonstrar tanto ódio por mim depois do que acaba de fazer?!" - Albafica abaixa a cabeça, deixando que a franja cubra-lhe os olhos para esconder os sentimentos, que já começam a aflorar em seus olhos. - "Minos... Então esse era teu jogo! Seduzir-me e usar meus sentimentos para me torturar... Como pôde? Você não tem nenhum sentimento? Para você, tudo se resume a poder e destruição? Só consegue se satisfazer humilhando e espezinhando as pessoas?! Inacreditável! Não consigo acreditar que alguém consiga ser tão frio assim! E eu... Sou ainda pior que você, pois mesmo com tudo isso, não consigo te odiar! Por que eu não consigo te odiar?! Como posso ser tão idiota a ponto de amar alguém como você?! Que ódio que eu tenho de mim! Que ódio!”
E assim, Griffon o fez. Após o banho e os curativos, trancou-se no escritório. O pisciano apenas observou Minos, que ignorou completamente sua presença ao passar pelo quarto, perseguido por Luco, que protestava veementemente de sua decisão. Dryade alegava que isso prejudicaria o juiz em sua recuperação, quando teve a porta fechada diante de si. O santo de peixes se viu mais uma vez sozinho com o espectro e isso o deixou em pânico. Mas logo o espectro o dopou, fazendo-o dormir. Nos dias que se passaram, Albafica esperava o retorno do juiz, que nunca acontecia. Durante o resto da estadia de Dryade, Minos só voltava ao quarto ao saber que o rapaz estava adormecido. Porém, não se demorava, para que quando o pisciano acordasse, não o encontrasse e deu ordens para que Byako secretamente zelasse pela segurança do cavaleiro. Dryade continuava sedando o jovem. Aumentara a dose ao perceber que ele se adaptava à droga, tornando-se cada vez mais agitado e arredio, enquanto a tristeza, dor e revolta o consumiam.

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