"O despertar da rosa"
Minos abre seus olhos lentamente, levando sua mão até a testa e tirando o pano úmido que repousava sobre ela. Passou a noite inteira tentando diminuir sua febre altíssima, que não passava de jeito algum e, como era muito orgulhoso, jamais pediria ajuda a alguém, nem mesmo ao seu braço direito, Lune, o qual o juiz tinha total confiança. Ainda sentia as mesmas dores devido aos espasmos, que não diminuíram em nada sua intensidade, enquanto sua cabeça continuava latejando, o que o levava à beira da loucura. Minos estava, literalmente, vivendo seu inferno pessoal. Ele poderia acabar com isso facilmente, se pedisse a Luco de Dryade que o curasse com seu suzuran (lírio do campo), mas seria a morte para ele reconhecer que precisava de cuidados. Sendo assim, sofria calado, não deixando transparecer toda a sua dor.
O juiz olha para o relógio, que repousava na cabeceira da cama, vendo que já passavam das nove horas da manhã, mas não fica nem um pouco preocupado com isso, pois já havia encarregado Lune de todos os afazeres da casa do julgamento e não pretendia sair de seus aposentos naquele dia. O motivo era simples: Byako havia trazido Albafica até seus aposentos na madrugada passada e o havia deixado desacordado, acorrentado a um forte elo que se prendia no chão de granito do cômodo. Minos levanta sua cabeça em direção ao cavaleiro, que ainda estava inconsciente dormindo no chão, deitado de costas para sua cama, com as mesmas vestes com que foi sepultado. Era uma veste sacerdotal branca e longa, que tradicionalmente os cavaleiros mortos eram vestidos para a cerimônia de sepultamento. Isso causou um certo asco em Minos, pois teve a nítida impressão de que havia um cadáver em seu quarto.
Ele se levanta, vagarosamente, fitando o pisciano e então, se aproxima com passos curtos e preguiçosos. Fica parado um bom tempo ao lado do cavaleiro, fitando-o, observando-o, analisando-o, pensando o que faria com ele agora que, definitivamente, o pertencia. Mas logo é tirado de seus devaneios, sentindo uma forte dor devido a contração insuportável em seu abdômen. Aqueles espasmos o faziam se sentir um fraco e isso o irritava bastante. Minos trinca os dentes, tentando aguentar a dor, enquanto olha cheio de ódio para Albafica, ao mesmo tempo em que fechava as mãos, apertando-as com força. Mas seu ódio todo some instantaneamente quando o pisciano se revira no chão, virando seu rosto na direção do espectro, enquanto deixa escapar um gemido espontâneo e descansado durante seu sono profundo.
Agora Minos podia observar aquele rosto angelical, que no momento não expressava nada além de tranqüilidade. Como se fosse tomado por algum tipo de feitiço, Minos se perde nele, esquecendo totalmente suas dores e febre.
"Como ele é lindo...! Essa expressão... o deixa ainda mais belo. Como pode um homem como ele ter tamanha beleza e delicadeza?" – pensa, enquanto fita não só o rosto do rapaz, mas todo o seu corpo, especialmente as mãos e braços, completamente delicados, que se mostravam em meio a todo aquele pano que cobria seu corpo. Minos se aproxima ainda mais, agachando-se bem próximo a ele, levando a mão lentamente até a mão do cavaleiro. Mas desiste de tocá-lo, distanciando-se um pouco ao pensar que, se Albafica acordasse, toda aquela paz desapareceria de sua feição, dando lugar ao seu olhar arredio e, porque não dizer, selvagem.
O juiz vai até seu bar privado e pega uma garrafa de vinho, se servindo num cálice de cristal ornamentado com detalhes em ouro. Leva a garrafa e o cálice consigo, senta-se em frente ao cavaleiro numa luxuosa e confortável poltrona de apenas um lugar, coloca a garrafa numa pequena mesa redonda ao seu lado e volta a fitar o cavaleiro, admirando sua beleza e observando atento a cada gesto que fazia esporadicamente enquanto dormia.
Duas horas haviam se passado e Minos ainda se encontrava totalmente imerso em sua vigilância ao cavaleiro. A garrafa de vinho tinto já se encontrava pela metade e o leve efeito do álcool chegava a amenizar suavemente a dor que sentia em sua cabeça e corpo. O juiz estreita seus olhos e observa ainda mais atentamente, desencostando um pouco de sua poltrona quando percebe que Albafica está despertando. O momento que ele esperava anciosamente desde que acordou, havia chegado.
Sentindo a friagem e dureza do granito em que está deitado, Albafica abre os olhos lentamente, dando alguns gemidos baixinhos e se mexendo, um pouco incomodado com seu mal jeito. O local estava um pouco escuro e, para o cavaleiro, era completamente desconhecido. Sem perceber a presença do espectro, que o observa sentado na poltrona um pouco distante, o pisciano se levanta delicadamente, permanecendo sentado no chão e levando suas mãos aos olhos, esfregando-os. Mas logo para, fitando atentamente seus punhos quando vê aquelas algemas brutas de ferro que o prendem. Seu olhar percorre lentamente toda a corrente e pára no grande elo fixado ao chão.
- Mas... O que é isso?! – diz, enquanto pega na corrente, analisando a mesma. Fica completamente confuso e espantado, pondo-se logo a pensar, tentando lembrar-se de tudo que aconteceu.
A cada nova expressão na face do cavaleiro, Minos sente uma grande satisfação. Ele está se divertindo com a situação. Sua curiosidade aumenta ainda mais quando imagina como Albafica reagirá ao vê-lo.
- É mesmo... Eu deveria estar morto! Mas... Por que não estou? - ainda mais confuso, o santo de Atena observa suas vestes mortuárias, se lembrando dos seus últimos momentos de vida.
- Porque Hades-sama o trouxe de volta à vida! - Minos não se agüenta mais de tanta expectativa e responde ao cavaleiro, que dá um sobressalto com o susto e volta seu olhar na direção da voz.
Albafica arregala os olhos, fitando o juiz que estava escondido, não intencionalmente, na escuridão. Aquela voz lhe era muito familiar e, mesmo que não pudesse sentir seu cosmo ou ver nitidamente seu rosto, sabia muito bem de quem se tratava.
- Você?! – exclama quase num grito, devido à surpresa. - Mas você estava...
Antes do pisciano terminar sua frase, se cala, abaixando a cabeça e finalmente prestando atenção no que o espectro havia acabado de falar.
- Hunf... Parece-me que agora entendeu o que está acontecendo, mesmo que não saiba das circunstancias envolvidas nisso. - o juiz se levanta, tomando o ultimo gole de vinho que restava na taça e colocando-a ao lado da garrafa, sobre a mesinha. Vai até a grande janela, que pegava de ponta a ponta da parede, puxando uma corda que faz com que as cortinas se abram, clareando um pouco o local e revelando o inferno que ocupa de toda a paisagem.
Albafica fica completamente perplexo e confuso. Não consegue falar uma palavra sequer, enquanto Minos volta a fitá-lo, com um sorriso discreto e ao mesmo tempo sádico, se deliciando com aquela expressão estarrecida do rapaz, que agora fitava boquiaberto o horizonte.
O pisciano finalmente acordou, e agora? O que acontecerá? Quais planos maquiavélicos minos tem guardados para ele?
Próximo capítulo: "Eternamente Marcado"
Fiquem ligados.
Minos de Griffon

Nenhum comentário:
Postar um comentário